I – Introdução
Existe uma tensão que muitas pessoas jamais verbalizam, mas que carregam silenciosamente em seu interior: o conflito entre a necessidade de compreender racionalmente o mundo e o convite da fé cristã para crer em algo que vai além do que pode ser provado em laboratório ou deduzido por silogismos. Essa tensão é especialmente intensa em pessoas com perfis analíticos, aquelas que desde cedo aprenderam a questionar antes de aceitar, a pedir evidências antes de concluir, a desconfiar do que não pode ser verificado. Engenheiros, médicos, cientistas, programadores, filósofos, advogados, matemáticos, e também pessoas sem formação acadêmica específica, mas que simplesmente foram construídas assim — com uma mente que não se satisfaz com respostas vagas e que encontra um certo desconforto genuíno diante de afirmações que não consegue ancorar em algo sólido.
Para muitos desses indivíduos, o Cristianismo parece, à primeira vista, pertencer ao universo do sentimento, da ingenuidade ou da fé cega — algo para pessoas que precisam de um consolo emocional, mas não para quem foi treinado a olhar as coisas como elas realmente são. A ideia de acreditar em um Deus invisível, em uma ressurreição corporal, em milagres históricos e em uma narrativa que começa com a criação do universo por um ser pessoal parece, para a mente analítica não transformada, um conjunto de afirmações extraordinárias que exigem evidências extraordinárias — e que, aparentemente, não as possuem.
Este artigo existe para essas pessoas. Não para forçar uma conversão emocional, nem para pedir que desliguem o cérebro na porta da igreja. Pelo contrário: este artigo é um convite para que a mente analítica seja usada em sua plenitude ao examinar o Evangelho, porque a fé cristã genuína nunca teve medo das perguntas difíceis. Como o apóstolo Pedro nos instrui: “Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que lhes pedir a razão da esperança que vocês têm” (1 Pedro 3:15). Há razões. Há evidências. E há um Deus que, longe de temer as perguntas de uma mente investigadora, foi justamente Ele quem a criou.
1 – O que significa ter uma mente analítica e por que isso importa para a fé
Antes de qualquer coisa, é necessário reconhecer o valor real de uma mente analítica, sem condescendência e sem romantismo. Pessoas com esse perfil têm uma habilidade genuína para perceber contradições, para exigir coerência interna em sistemas de ideias, para resistir à pressão social na hora de aceitar uma afirmação, e para distinguir entre o que é real e o que é meramente confortante. Essas são qualidades que, em qualquer área da vida, produzem profundidade, rigor e confiabilidade.
No entanto, a mente analítica também tem suas vulnerabilidades particulares. Uma delas é a tendência de tratar a realidade como algo que se esgota no que pode ser medido, calculado, repetido em condições controladas e formalizado em linguagem precisa. Quando levada ao extremo, essa postura produz o que os filósofos chamam de cientificismo — não a ciência em si, que é uma ferramenta extraordinária para investigar o mundo natural, mas a crença de que a ciência é o único meio válido de conhecimento, e que tudo aquilo que não pode ser submetido ao método científico simplesmente não existe ou não merece ser considerado seriamente. O problema é que o próprio cientificismo não pode ser validado pelo método científico; ele é uma posição filosófica, não um resultado experimental. Uma mente verdadeiramente analítica, ao perceber isso, deverá reconhecer que há formas legítimas de conhecimento que operam fora do laboratório.
Outra vulnerabilidade comum é confundir ausência de evidência com evidência de ausência. A lógica correta nos diz que não encontrar algo onde procuramos não significa necessariamente que ele não exista; pode significar que procuramos no lugar errado, com os instrumentos errados, ou que a natureza daquilo que buscamos exige um tipo diferente de investigação. Um Deus pessoal que criou o universo não é o tipo de entidade que se detecta com um acelerador de partículas, assim como o amor entre duas pessoas não é o tipo de realidade que se encontra em uma biopsia. Isso não os torna irreais; torna-os inacessíveis por métodos projetados para investigar outra coisa.
Tudo isso não é um argumento a favor da irracionalidade. É, antes, um convite para que a mente analítica seja honesta sobre os limites e os pressupostos de suas próprias ferramentas, reconhecendo que a razão, sendo o instrumento de investigação, não é automaticamente o árbitro final de toda a realidade. Como C.S. Lewis, um dos maiores intelectuais do século XX e ex-ateu que se converteu ao Cristianismo pela força dos argumentos, observou: a razão é a faculdade que nos permite conhecer, mas isso não significa que o objeto do conhecimento está contido dentro da razão.
2 – Os obstáculos reais que a mente analítica encontra no Cristianismo
Seria desonesto e contraproducente ignorar os obstáculos reais que pessoas de perfil analítico encontram ao examinar o Cristianismo. Esses obstáculos merecem ser nomeados com clareza e levados a sério, não varridos para debaixo do tapete com respostas superficiais ou apelos emotivos.
O primeiro obstáculo é a questão dos milagres. Para uma mente formada pelo pensamento científico moderno, a ideia de que eventos sobrenaturais ocorreram na história — água transformada em vinho, cura de cegos e leprosos, ressurreição de mortos — parece violar as leis da natureza de forma tão fundamental que seria mais razoável explicá-los como mitos, exageros narrativos ou alucinações coletivas do que como eventos reais. O filósofo escocês David Hume argumentou, no século XVIII, que o testemunho a favor de um milagre nunca pode ser tão forte quanto o peso acumulado de toda a experiência humana de que tais coisas não acontecem. Esse argumento ainda ressoa em muitas mentes hoje.
O segundo obstáculo é a aparente circularidade da fé cristã. Quando alguém pergunta por que deve acreditar na Bíblia, muitos cristãos respondem citando a própria Bíblia — o que parece ser, para a mente analítica, um raciocínio circular clássico: validar a fonte usando a própria fonte. Essa percepção cria uma barreira de credibilidade que impede o exame sério da mensagem.
O terceiro obstáculo é o problema do mal e do sofrimento. Se existe um Deus que é ao mesmo tempo todo-poderoso, onisciente e perfeitamente bom, por que o mundo está cheio de sofrimento aparentemente gratuito, de doenças em crianças inocentes, de genocídios, de desastres naturais? Para uma mente que exige coerência lógica, a coexistência de um Deus assim com a realidade do mundo como o conhecemos parece uma contradição que precisa ser resolvida — e as respostas fáceis como “é um mistério” ou “Deus tem Seus planos” não satisfazem quem foi treinado a exigir explicações mais substanciais.
O quarto obstáculo é a percepção de que a crença religiosa é primariamente um fenômeno psicológico e cultural, não uma resposta a evidências objetivas. Estudos sobre ciência cognitiva da religião mostram que os seres humanos têm uma predisposição natural para atribuir agência e intenção a eventos, o que pode criar facilmente a impressão de presença divina onde não há nenhuma. Para a mente analítica, isso levanta a questão: não seria a crença em Deus simplesmente um subproduto da evolução cerebral, útil para a sobrevivência, mas sem correspondência com a realidade?
Esses são obstáculos legítimos. Nenhum deles, no entanto, é irrespondível — e a Bíblia não pede que os ignoremos.
3 – O que a Bíblia diz sobre a razão: Deus não teme as perguntas
Um equívoco profundo e persistente sobre o Cristianismo é a ideia de que ele exige o abandono da razão — que a fé bíblica é, por definição, uma crença sem evidências ou até contrária às evidências. Essa caricatura não sobrevive a um exame honesto das Escrituras. A Bíblia está repleta de convites ao pensamento rigoroso, ao questionamento honesto e à investigação cuidadosa, apresentando uma fé que, longe de ser cega, é fundamentada em eventos históricos verificáveis e em uma lógica interna coerente.
O profeta Isaías registra uma das afirmações mais surpreendentes de toda a Escritura, onde o próprio Deus convida Seu povo ao debate racional: “Vinde, e arrazoemos, diz o Senhor” (Isaías 1:18). A palavra hebraica traduzida por “arrazoemos” é o termo usado nos tribunais para debate jurídico e investigação lógica. Deus não diz “aceitem sem questionar”; Ele diz “venham argumentar comigo”. Esse é o Deus da Bíblia: não um déspota que exige submissão cega, mas um Ser que se apresenta como racionalmente defensável e que acolhe o exame honesto.
Paulo, ao chegar em Atenas, não pediu que os filósofos gregos desligassem o cérebro para ouvir o Evangelho. Ele dialogou com eles no terreno da filosofia e da razão, citando seus próprios poetas e argumentando a partir de princípios que eles podiam verificar, conforme registrado em Atos 17:16-34. Em Corinto, ele passava longos períodos discutindo nas sinagogas, “procurando persuadir judeus e gregos” (Atos 18:4) — o verbo “persuadir” implica argumentação racional, não mera proclamação emocional. O próprio livro de Atos registra que em Bereia os judeus “examinavam as Escrituras todos os dias para ver se aquelas coisas eram assim” (Atos 17:11), e Paulo os elogia por isso.
A fé cristã, conforme apresentada na Bíblia, não é uma fé que salta no vazio sem nada embaixo. É uma fé que salta porque viu que há algo embaixo: eventos históricos, testemunhos verificados, a coerência de uma narrativa que se estende por milênios, a transformação observável de vidas e sociedades, e a experiência de um Deus que Se revela a quem sinceramente O busca. Como o autor da carta aos Hebreus descreve: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam e a convicção de coisas que não se veem” (Hebreus 11:1). A palavra grega traduzida por “certeza” é hypostasis, que significa substância, fundamento real — não ilusão ou esperança sem base. A fé bíblica tem substância.
4 – A questão histórica: a ressurreição como evento investigável
O coração do Cristianismo não é um sistema filosófico ou um conjunto de valores éticos. É um evento histórico: a ressurreição de Jesus Cristo dos mortos. Paulo deixa isso inequívoco: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. Além disso, os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se a nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Coríntios 15:17-19). Paulo não está construindo um sistema de crenças imunes à refutação; ele está afirmando que, se um evento histórico específico não ocorreu, toda a fé cristã desmorona. Isso é intelectualmente admirável: é uma afirmação falsificável.
A questão que a mente analítica deve fazer, então, não é “milagres são possíveis em teoria?” mas “o que a evidência histórica diz sobre o caso específico da ressurreição de Jesus?”. E aqui as coisas se tornam muito mais interessantes do que muitos esperam. O historiador deve lidar com vários dados que precisam de explicação: a morte de Jesus por crucificação é aceita até por historiadores não cristãos, como Tácito e Flávio Josefo; o túmulo foi encontrado vazio por múltiplos grupos, incluindo adversários do movimento cristão, que nunca produziram o corpo; as aparições do ressuscitado são reportadas não apenas por discípulos individuais, mas por grupos, e Paulo menciona que Cristo apareceu a mais de quinhentas pessoas de uma só vez, desafiando seus contemporâneos a verificar: “a maioria das quais ainda vive” (1 Coríntios 15:6); e, finalmente, os discípulos foram de pessoas aterrorizadas, escondidas atrás de portas trancadas, a pregadores que enfrentaram prisão, tortura e morte proclamando que tinham visto o ressuscitado — uma transformação que exige uma causa adequada.
O historiador ateu Gerd Lüdemann, que dedicou anos a tentar refutar a ressurreição, reconhece que o túmulo estava vazio e que os discípulos genuinamente acreditavam ter visto o ressuscitado. A questão não é se algo extraordinário aconteceu — é o que foi esse algo. E aqui a hipótese da ressurreição compete com alternativas como alucinação coletiva, teoria do desfalecimento, fraude ou lenda tardia — cada uma das quais tem problemas históricos sérios que a mente honestamente analítica deve examinar sem descartá-las prematuramente.
5 – O problema do mal: a resposta cristã mais profunda
O problema do mal é, sem dúvida, a objeção filosófica mais poderosa ao teísmo cristão, e merece uma resposta que esteja à altura de sua seriedade. A versão lógica do problema afirma que a coexistência de um Deus onipotente, onisciente e perfeitamente bom com o sofrimento real no mundo é uma contradição formal. Se Deus pode eliminar o mal e não o faz, Ele não é bom. Se quer eliminá-lo e não pode, não é onipotente. Logo, ou Deus não existe, ou Ele não tem essas características.
O filósofo Alvin Plantinga respondeu a essa versão do argumento de forma que a maioria dos filósofos — incluindo muitos ateus — reconhece como bem-sucedida. O argumento da defesa do livre-arbítrio mostra que não há contradição formal entre a existência de Deus com essas características e a existência do mal: um Deus onipotente não pode criar seres com livre-arbítrio genuíno e ao mesmo tempo garantir que eles sempre escolham o bem. O livre-arbítrio real — a capacidade de escolher entre bem e mal — exige a possibilidade real do mal. Um mundo onde o mal é logicamente impossível é um mundo onde o amor, o sacrifício e a virtude genuínos também são logicamente impossíveis, pois não haveria mérito real em escolhas que não poderiam ser de outra forma.
Mas a resposta cristã ao problema do mal não é apenas filosófica; ela é narrativa e pessoal, e é aqui que ela se torna singularmente poderosa. O Deus do Cristianismo não é um Deus que observa o sofrimento de longe com indiferença olímpica. Ele é um Deus que entrou no sofrimento humano, que experimentou a dor, a traição, a injustiça, o abandono e a morte. A cruz não é apenas um evento soteriológico; é a afirmação mais radical já feita na história de que Deus está presente no sofrimento humano, não acima dele. Como escreve o autor da carta aos Hebreus: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado” (Hebreus 4:15). Esse detalhe muda radicalmente a conversa.
Além disso, Paulo aponta para uma resposta que transcende a filosofia e toca na esperança concreta: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (Romanos 8:18). Isso não é uma negação do sofrimento; é a afirmação de que o sofrimento presente está inscrito em uma narrativa maior, com um desfecho que o ressignifica sem o trivializar.
6 – Ciência e fé: aliadas mal compreendidas
Um dos maiores mal-entendidos da modernidade é a ideia de que ciência e fé cristã estão em guerra. Esse mito histórico foi popularizado no final do século XIX por dois livros — o de John William Draper e o de Andrew Dickson White — e tem sido desmontado sistematicamente por historiadores da ciência nas últimas décadas. O consenso atual entre os historiadores é que a tese do conflito é uma distorção histórica grosseira.
A realidade é que o Cristianismo foi um dos principais incubadores do pensamento científico no Ocidente. A crença de que o universo foi criado por um Deus racional e ordenado, e que portanto é compreensível à razão humana — que foi criada à imagem d’Esse Deus — forneceu a motivação filosófica fundamental para o surgimento da ciência moderna. Cientistas pioneiros como Nicolau Copérnico, Galileu Galilei, Johannes Kepler, Isaac Newton, Robert Boyle, Michael Faraday, Gregor Mendel e Georges Lemaître (o padre católico que propôs o modelo do Big Bang) eram crentes convictos que viam seu trabalho científico como uma exploração da obra de Deus. Newton escreveu mais sobre teologia do que sobre física.
Hoje, a pesquisa mostra que a percepção de incompatibilidade entre ciência e fé é muito mais comum entre o público geral do que entre os próprios cientistas. Uma pesquisa da Pew Research Center de 2009 mostrou que cerca de 51% dos cientistas norte-americanos declaravam crer em Deus ou em uma força superior. A Royal Society, a mais antiga academia científica do mundo, tem uma longa história de membros cristãos. Francis Collins, um dos responsáveis pelo mapeamento do genoma humano e ex-diretor do National Institutes of Health, é um cristão convicto que escreveu sobre como a ciência e a fé se complementam em sua vida.
A ciência responde ao “como” e ao “quando” do universo. A fé cristã responde ao “por quê” e ao “quem”. As duas perguntas não são competidoras; são complementares. Uma criança que pergunta “como o bolo foi feito?” e outra que pergunta “por amor a quem ele foi feito?” não estão fazendo a mesma pergunta, mas as duas perguntas são legítimas e não se excluem.
7 – A diferença entre fé cega e fé fundamentada
Uma das contribuições mais importantes que a mente analítica pode fazer para si mesma é a distinção precisa entre dois tipos de fé. O primeiro é a fé cega: a crença mantida apesar de evidências contrárias, ou sem nenhuma evidência, apenas por pressão social, tradição familiar ou necessidade emocional. Esse tipo de fé existe, e a Bíblia não o endossa. O segundo é a fé fundamentada: a crença baseada em evidências suficientes para justificar a confiança, mesmo que não haja certeza absoluta — porque certeza absoluta é um padrão que não aplicamos consistentemente em nenhuma outra área da vida.
Nenhum ser humano funciona com certeza absoluta sobre as coisas mais importantes de sua vida. Você não tem certeza absoluta de que os eventos históricos que estudou realmente ocorreram, de que as pessoas ao seu redor têm consciência subjetiva como a sua, de que o universo existia antes de você nascer. Você funciona com base em evidências que considera suficientes para justificar a confiança — e age de acordo com essa confiança. Isso não é irracionalidade; é epistemologia adulta.
A fé cristã, quando examinada honestamente, não pede mais do que isso. Ela apresenta eventos históricos, argumentos filosóficos, testemunhos de transformação de vida, a coerência interna de uma narrativa que atravessa séculos, e a experiência pessoal de milhões de pessoas que encontraram nela uma realidade capaz de sustentar a existência. Ela pede que você avalie essa evidência com a mesma honestidade intelectual que aplicaria a qualquer outra afirmação importante, e que, se a evidência for suficiente, dê o próximo passo: não um salto no escuro, mas um passo fundamentado em direção a Deus, que prometeu revelar-Se àqueles que sinceramente O buscam.
Como Jesus disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; porque todo o que pede recebe; e o que busca, encontra; e ao que bate, abrir-se-lhe-á” (Mateus 7:7-8). Esse versículo é, em certo sentido, um convite empírico: busque com seriedade, e verifique o resultado.
8 – O momento em que a lógica chega ao seu limite — e o que encontra além dele
Há um ponto específico na jornada intelectual de muitas pessoas analíticas que chega de forma inesperada: o momento em que a lógica, levada a suas últimas consequências, aponta para além de si mesma. O universo existe. O fato de que algo existe, em vez de nada, é um dado que não pode ser explicado pelo próprio universo, pois a explicação causal de um sistema não pode estar dentro do próprio sistema. A cosmologia moderna, com o modelo do Big Bang, aponta para um começo absoluto do espaço, do tempo e da matéria, o que implica uma causa que existe fora do espaço, do tempo e da matéria — algo que filósofos como o ateu Kai Nielsen chegam a admitir como racionalmente defensável. A teoria da afinação fina do universo, que revela que as constantes físicas fundamentais são ajustadas com uma precisão tão extraordinária que qualquer variação microscópica tornaria a vida impossível, coloca um desafio sério à explicação puramente naturalista. O matemático Roger Penrose calculou que a improbabilidade da baixa entropia do universo inicial é da ordem de 10^(10^123) contra 1.
Esses dados não provam o Deus da Bíblia de forma conclusiva. Mas abrem a porta para que a mente analítica honesta reconheça que a hipótese de um Criador inteligente e pessoal não é uma hipótese irracional — é, na verdade, uma hipótese que explica os dados com uma elegância que o naturalismo tem dificuldade de igualar.
E é exatamente ali, nesse ponto em que a lógica esgota o que pode alcançar sozinha, que muitos encontram algo que não esperavam: não o fim da razão, mas o início de uma conversa com Aquele que a criou. Como o salmista escreveu: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos” (Salmos 19:1). E como Paulo registra sobre o que pode ser conhecido de Deus através da razão: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde a criação do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Romanos 1:20).
9 – O que muda quando a mente analítica encontra Cristo
Há algo importante que precisa ser dito com clareza: encontrar Cristo não embota a mente analítica. Pelo contrário. Inúmeros intelectuais com perfis profundamente analíticos — C.S. Lewis, G.K. Chesterton, Alvin Plantinga, Francis Collins, John Lennox, Antony Flew (que foi o principal filósofo ateu do século XX antes de se tornar teísta), Lee Strobel (jornalista investigativo que tentou refutar o Cristianismo e se converteu ao examiná-lo) — descreveram sua chegada à fé não como a rendição da razão, mas como o seu coroamento.
O que muda é que a razão encontra, finalmente, um objeto que está à sua altura. As grandes questões que toda mente analítica inevitavelmente formula — por que existe algo em vez de nada, qual o fundamento da moralidade objetiva, qual o significado da consciência, o que dá valor real à vida humana — encontram no Evangelho respostas que não apenas satisfazem intelectualmente, mas que são vivas, relacionais e transformadoras. Paulo descreve essa experiência com uma frase que unifica razão e vida: “Não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2). A renovação da mente é, no Novo Testamento, uma realidade central da vida cristã — não sua negação.
O que também muda é a experiência de uma presença que não pode ser deduzida de nenhum argumento, mas que se torna verificável de forma pessoal para quem dá o passo da confiança. Deus não é apenas uma conclusão lógica; Ele é uma Pessoa que se relaciona, que responde à oração, que transforma o caráter, que consola na dor e que dá sentido ao que antes parecia arbitrário. Essa é a dimensão que nenhum argumento pode transmitir completamente, mas que Jesus promete àqueles que O buscam: “Deixo com vocês a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbem os seus corações, nem tenham medo” (João 14:27).
Conclusão – A razão não é inimiga de Deus; é Seu presente
Chegamos ao final deste artigo com uma mensagem que esperamos seja recebida com a seriedade que merece: se você tem uma mente analítica e tem sentido dificuldade em se aproximar do Cristianismo, você não está sozinho, e suas dúvidas não são um pecado. Elas podem ser, na verdade, o caminho pelo qual Deus está te chamando a uma fé mais profunda, mais honesta e mais sólida do que aquela que nunca foi testada por perguntas difíceis.
A razão que você possui não é um obstáculo entre você e Deus; ela é um presente dado por Ele, e Ele não a criou para que você a abandone na porta da fé, mas para que a use como uma das ferramentas com as quais você O encontra. O convite de Jesus não é para os ingênuos; é para os honestos. E a honestidade intelectual que leva uma mente analítica a dizer “não aceito o que não consigo verificar” é, quando levada a sério, a mesma honestidade que pode levá-la a dizer, diante das evidências, “há aqui algo que exige uma explicação que vai além do naturalismo”.
O passo seguinte não é um salto no escuro. É um exame honesto. Leia os Evangelhos como leria qualquer documento histórico — com atenção, com espírito crítico e com disposição de chegar onde a evidência levar. Leia os argumentos de pensadores que foram onde você está e viram o que você vê. Ore, mesmo que não tenha certeza de que alguém está ouvindo, pedindo que o Deus que possivelmente existe Se revele a uma mente que está genuinamente disposta a saber a verdade. E veja o que acontece.
Deus não tem medo das suas perguntas. Ele as espera. E tem respostas que não apenas satisfazem a mente, mas alimentam a alma: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mateus 11:28). Esse convite não é apenas para o coração. É para a mente inteira — inclusive a analítica.
“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria, e o conhecimento do Santo é prudência” (Provérbios 9:10).

7 Comentários
O texto é excelente em vários sentidos. No fortalecimento da FÉ, na consciência de que a nossa existência é uma centelha do amor DIVINO e que a inteligência que nos foi ofertada nesta criação, como citou Gonzaguinha É o sopro do criador numa atitude repleta de amor. É muito difícil definir Deus, mas tenho uma definição minha: É A INTELIGÊNCIA SUPREMA DO UNIVERSO E CAUSA PRIMÁRIA DE TODAS AS COISAS, pois se não existisse nada mais existiria..
Muito obrigado por tão belo texto.
Amém meu amigo. Que Deus continue abençoando a sua vida e da sua família!
O artigo me trouxe respostas e alívio sobre minha mente ser questionadora. Não pode ser pecado. Sim,! Entendo que é Deus nos dando oportunidades de conhecê- lo de forma mais íntima, diferentemente do que temos sido ensinados, o artigo nos propõe menos emoção e mais razão quando nos interessamos em conhecer a Deus.
Amém minha. Que Deus continue abençoando a sua vida e da sua família!
Simplesmente a fe q nos move!!!
Amém minha. Que Deus continue abençoando a sua vida e da sua família!
Olá Cida. Seu artigo me trouxe respostas e alívio sobre minha mente ser questionadora. Não pode ser pecado. Sim,! Entendo que é Deus nos dando oportunidades de conhecê- lo de forma mais íntima, diferentemente do que temos sido ensinados, o artigo nos propõe menos emoção e mais razão quando nos interessamos em conhecer a Deus.